Seu filho grita, bate, morde ou se joga no chão: a CAA pode ajudar? Muitas vezes, sim. Na grande maioria dos casos, um comportamento desafiador é uma mensagem: a pessoa quer conseguir alguma coisa, escapar de uma situação ou sinalizar um mal-estar, com o único meio que funciona para ela naquele momento. A CAA oferece outro, desde que seja pelo menos tão fácil e tão eficaz.
O que o comportamento quer dizer?
Mais de 90% das pessoas autistas apresentam, em algum momento, comportamentos desafiadores (Jang et al., 2011, citados por Beukelman & Light, 2020). Quando não se consegue dizer “cansei”, “está doendo” ou “olha para mim”, o corpo assume. As mensagens mais frequentes são:
Pedido de atenção“Vem comigo”, “olha para mim”
Pedido de objeto ou atividade“Eu quero isso”, “mais”
Fuga ou protesto“Eu não quero”, “é demais”, “pare”
Desconforto físicoDor, fome, cansaço, barulho, necessidade sensorial
Antes de falar em comportamento, verifique sempre se não há uma causa médica. Uma pessoa que não consegue dizer “estou com dor de dente” pode bater a cabeça ou recusar comida. As palavras do corpo e da dor estão detalhadas em Corpo, dor, consentimento.
Como substituir o comportamento por uma mensagem?
O treino de comunicação funcional, ou FCT (Functional Communication Training), foi descrito por Carr e Durand (1985) e se apoia em várias metanálises (Beukelman & Light, 2020). O princípio: ensinar uma mensagem que consiga a mesma coisa que o comportamento. O processo tem seis etapas.
1. Descobrir a função do comportamento
Anote o que acontece antes (a situação que desencadeia), o comportamento em si e o que acontece depois (o que a pessoa consegue ou evita). É o registro A-B-C: antecedente, comportamento (behavior), consequência. Preencha-o durante vários dias, em vários lugares: as regularidades revelam a função.
Exemplo: toda vez que lhe apresentam os exercícios de escrita, Léo joga o caderno longe. Depois, o adulto guarda o caderno e oferece uma pausa. Função provável: escapar de uma tarefa difícil. Léo precisa de uma forma aceitável de dizer “é difícil demais” ou “pausa, por favor”.
2. Escolher uma mensagem pelo menos tão fácil e eficaz
A mensagem precisa conseguir a mesma coisa que o comportamento. Se tocar em PAUSA exige três páginas de navegação e jogar o caderno funciona na hora, quem ganha é o comportamento (Horner & Day, 1991, citados por Beukelman & Light, 2020). Por isso, a mensagem deve estar acessível com um gesto, em todas as páginas, em todos os lugares. No Pictalk Buddy, o vocabulário PicTalk Essencial 24, por exemplo, mantém sim, não, mais, acabou, me ajuda e pare no mesmo lugar em todas as páginas.
3. Ensinar a mensagem antes do comportamento
Aos primeiros sinais de tensão, antes que o comportamento apareça, mostre a mensagem na ferramenta (“Você quer uma pausa?” tocando em PAUSA) e responda logo em seguida. Guie da maior para a menor ajuda: aos poucos, espere um pouco mais antes de ajudar (veja Modelar, esperar, responder).
4. Responder à mensagem melhor do que ao comportamento
No início, a mensagem precisa funcionar todas as vezes, imediatamente: comunicar passa a ser mais eficaz do que gritar. Já o comportamento deve conseguir menos, ou mais devagar.
5. Que todos respondam da mesma forma
Pais, professores, mediador escolar, educadores, avós: se uma única pessoa ignora a mensagem PAUSA, a pessoa aprende que ela nem sempre funciona. Escreva as regras numa folha compartilhada.
6. Reduzir as situações que desencadeiam
Anuncie as transições, encurte as tarefas, ofereça escolhas, prepare um cantinho calmo. Para que a pessoa saiba o que vai acontecer e quando vai acabar, veja Apoios visuais: agenda, sequências, temporizador.
Que mensagens de substituição oferecer?
| Função do comportamento | Mensagens de substituição possíveis |
|---|---|
| Chamar a atenção | Tocar no ombro, fazer um sinal; VEM, POR FAVOR; OLHA PARA MIM; EU QUERO FICAR COM VOCÊS |
| Conseguir um objeto ou uma atividade | QUERO, MAIS, POR FAVOR + uma escolha; pedidos específicos |
| Fugir ou protestar | NÃO, OBRIGADO; ACABOU; PRECISO DE UMA PAUSA; PARE; balançar a cabeça |
| Sinalizar um desconforto | NÃO ESTOU BEM; DÓI + parte do corpo; TEM BARULHO DEMAIS; PRECISO ME ACALMAR |
Essas mensagens se inspiram nos exemplos de Beukelman e Light (2020), adaptados ao português. Escolha-as com a pessoa e sua equipe. As outras funções da comunicação são apresentadas em Além dos pedidos.
É preciso ensinar NÃO, PARE e ACABOU?
Sim, e cedo. Às vezes se teme que a pessoa use essas palavras “o tempo todo”: ela provavelmente vai fazer isso no início, é normal. Poder recusar de forma aceitável é um direito e reduz os comportamentos desafiadores. As palavras de protesto e de autorregulação (pare, não, acabou, outra coisa, é demais) estão entre as primeiras a oferecer.
Quando a pessoa diz PARE durante uma brincadeira, pare imediatamente: ela aprende que sua palavra tem poder.
E quando a recusa não pode ser aceita?
Um remédio, um exame de sangue, o cinto de segurança: algumas recusas não podem ser respeitadas. Beukelman e Light (2020) aconselham, nesses casos, oferecer controle dentro da restrição: com que bebida tomar o remédio, em que ordem fazer as etapas, que objeto de conforto manter, quem ajuda. Reconheça a mensagem (“Eu sei, você não quer”) mesmo que não possa atendê-la.
Perguntas frequentes
A CAA basta para fazer os comportamentos desafiadores desaparecerem?
Ela pode contribuir, quando a mensagem cumpre a mesma função que o comportamento. Nenhuma ferramenta garante um resultado: o que conta é o processo como um todo (função, mensagem, respostas coerentes, ambiente).
Quem pode me ajudar a analisar um comportamento?
Um psicólogo, um fonoaudiólogo ou a equipe multiprofissional que acompanha a pessoa pode fazer uma análise funcional com você.
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Referências
- Beukelman, D. R., & Light, J. C., 2020, Augmentative & Alternative Communication (5. ed.), Paul H. Brookes, capítulos 3 e 10.
- Carr, E. G., & Durand, V. M., 1985, Reducing behavior problems through functional communication training, Journal of Applied Behavior Analysis, 18(2), 111-126.
- Estudos citados a partir de Beukelman & Light (2020): Jang et al. (2011); Horner & Day (1991).