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Que palavras colocar na ferramenta: nuclear, periférico e pessoal
Que palavras colocar na ferramenta: nuclear, periférico e pessoal
Alexandros

Escrito por Alexandros SIDIRAS GALANTE em segunda-feira 28 setembro 2026, atualizado em quinta-feira 15 outubro 2026

Tempo estimado de leitura ~ 7 minutos

Que palavras colocar numa ferramenta de CAA quando se começa do zero? Uma mistura de três famílias: algumas palavras frequentes que servem em todo lugar, as palavras das atividades da pessoa e as palavras só dela. Veja aqui uma primeira lista em português e um método para organizar o vocabulário e fazê-lo crescer.

Nuclear, periférico, pessoal: as três famílias de palavras

  • NuclearPalavras frequentes que servem em todo lugar
  • PeriféricoAs palavras de um tema, sobretudo substantivos
  • PessoalAs pessoas próximas, os lugares, as paixões
As três famílias de palavras para misturar na ferramenta.
  • O vocabulário nuclear (ou core vocabulary): palavras muito frequentes, usadas por muitas pessoas em muitos contextos. Sobretudo palavrinhas gramaticais (“o”, “em”, “isso”) e algumas palavras comuns (“ir”, “querer”, “mais”).
  • O vocabulário periférico: as palavras de um tema, sobretudo substantivos (“escorregador”, “papinha”, “carregador”). Sem elas, dá para dizer “eu quero isso”, mas não “eu quero a papinha de maçã”.
  • O vocabulário pessoal: nomes, o animal de estimação, lugares familiares, paixões. Só a pessoa e quem convive com ela podem fornecê-lo.

Você vai ler com frequência que “80% do que dizemos é vocabulário nuclear, 20% é periférico”. O livreto que popularizou esse número não cita nenhum estudo: é uma ordem de grandeza, não um resultado de pesquisa.

Por quais palavras começar?

O vocabulário nuclear é necessário, nunca suficiente. As listas publicadas se baseiam na linguagem de falantes mais velhos, coincidem pouco entre si e se parecem pouco com as verdadeiras primeiras palavras das crianças pequenas (Laubscher & Light, 2018). Na criança com desenvolvimento típico, as 50 primeiras palavras são de 60 a 65% substantivos, de 14 a 19% palavras de ação e só de 0 a 4% palavras gramaticais (Fenson et al., 2007).

Por isso, quem está começando não começa com uma grade de palavras nucleares. Começa com:

  • palavras pessoais e motivadoras: as pessoas próximas, a naninha, o desenho animado, a bebida preferida;
  • algumas palavras poderosas que não são substantivos: “mais”, “acabou”, “pare”, “não”, “quero”, “me ajuda”, “ir”, “abrir”, “olhar”, “o que?”, “oi”, “opa”.

Por volta de umas cinquenta palavras, quando as combinações aparecem, acrescente pronomes, verbos e palavras para descrever; as palavrinhas gramaticais vêm com a gramática. O alfabeto está presente desde o início. Toda lista é revisada com a pessoa e quem convive com ela (Yorkston et al., 1990). Três conselhos para as primeiras semanas:

  • Não treine demais o “eu quero”. As primeiras combinações muitas vezes passam sem ele: “mais cócegas”, “mamãe vem”.
  • Dê cedo as palavras para recusar (“pare”, “acabou”, “não”) e as palavras-curinga: “isso” junto com o apontar, “fazer” no lugar de um verbo que falta.
  • Escolha de 3 a 5 palavras-alvo e use-as você mesmo na ferramenta durante os momentos preferidos: é a modelagem.

As 50 primeiras palavras adaptadas ao português

A lista em inglês mais conhecida de “50 primeiras palavras nucleares” vem da empresa Prentke Romich (PRC) e serve de fio condutor ao livreto Teaching Core Words Across the Day (Liberator). Quase nenhuma é substantivo. Veja a adaptação para o português do Brasil proposta pelo Pictalk.

FunçãoPalavrasBom saber
Pedirmais, quero, me ajudapara as crianças pequenas, “mais” também quer dizer “de novo”
Dirigir a açãoir, vem, pegar, fazer, colocar, brincar, ler, olhar, abrir, fechar, comer, bebero imperativo (“vem”) é a forma natural de uma palavra só
Parar, mudarpare, para com isso, acabou, não, outro, prontoo “não” vem antes do verbo: “não quero”
Descrever, dar opiniãogostar, bom, bem, ruim, grande, pequeno, rápido, devagar, assim“bom” e “bem” não se trocam: “é bom”, “está bem”
Emoções e corpocontente, triste, bravo, sentir, dói, doente“dói”, “estou com dor”: uma estrutura diferente da do inglês
Pessoaseu, mim, minha vez, meu/minha/meus, você, te, vocês, isso“minha vez!” funciona sozinho, “mim” pede um “para” (“para mim”)
Lugar, direçãodentro, fora, em cima, lá em cima, lá embaixo, ligar, desligar, tiraruma palavra inglesa se traduz aqui de várias formas
Perguntaro que?, o que é?com um gesto de apontar
Reagirai, eca, opa, nham, legal, muito bomessas interjeições vêm naturalmente
Coresvermelho, azul, verde, amarelo…a concordância conta: vermelha, amarela

O que o português junta e o que ele separa

Traduzir palavra por palavra uma lista em inglês não funciona. O português junta várias palavras nucleares do inglês:

  • fazer cobre do e make;
  • mais cobre more e, na fala das crianças pequenas, também again; “de novo” deixa esse sentido claro;
  • pegar cobre boa parte de get e take;
  • isso cobre it e that, e designa qualquer coisa junto com o apontar.

Ao contrário, ele separa outras: on/off vira “ligar / desligar”, “colocar / tirar” ou “em cima”, conforme o sentido; be se divide entre “ser” (o que algo é) e “estar” (como ou onde está agora); feel se divide entre “sentir” (tocar) e “se sentir” (emoção); up/down vira “em cima / embaixo” ou “subir / descer”. Acrescente a concordância (cansado, cansada), a conjugação e a escolha entre “você” e “o senhor”: em português, a gramática não é opcional. Aliás, o Buddy conjuga automaticamente (“eu querer comer” vira “eu quero comer”).

Pensar também nas palavras de que a pessoa vai precisar

Outra distinção ajuda a não esquecer nada (Vanderheiden & Kelso, 1987):

  • O vocabulário de cobertura: o que a pessoa precisa poder dizer, mesmo raramente: suas necessidades, as fórmulas sociais, as necessidades ligadas à deficiência (“muda minha posição”, “não consigo respirar”) e as palavras próprias de cada contexto (um aniversário, uma sessão de fisioterapia).
  • O vocabulário de desenvolvimento: palavras que a pessoa ainda não conhece, colocadas com antecedência para que quem está por perto possa mostrá-las durante uma experiência nova. Antes da primeira ida ao circo, acrescente “palhaço”, “leão”, “engraçado”, “dá medo”. Depois que “o que”, “quem” e “onde” forem adquiridos, acrescente “por que”, “como” e “quando”.
  • O vocabulário de aceleração: mensagens longas e frequentes gravadas inteiras para ganhar tempo. Veja as frases prontas.

Os vocabulários prontos muitas vezes esquecem as palavras do corpo, da dor e das emoções mais sutis: elas são tratadas em Corpo, dor, consentimento. Para um adolescente, escolha também palavras da idade dele, não as de uma criança de 4 anos.

Organizar as palavras: por categoria ou por atividade?

  • Por categoria (pessoas, alimentos, roupas, lugares): lógico para um adulto, mas as crianças só começam a organizar as palavras assim por volta dos 6 ou 7 anos (Fallon, Light & Achenbach, 2003). E “ontem eu fui na casa da vovó” obriga a mudar de página várias vezes.
  • Por atividade (o banho, o lanche, o recreio): é assim que as crianças pequenas agrupam as palavras. O risco: as palavras frequentes acabam em lugares diferentes de uma página para outra.

A solução recomendada combina as duas: páginas de tema ou de atividade e uma faixa de palavras nucleares fixa, que fica no mesmo lugar em todas as páginas. Uma página temática não deve conter só substantivos: ela precisa de verbos, de palavras para descrever e de um jeito de recusar; senão a pessoa aprende a nomear, não a falar. Na página Bebidas do PicTalk Essencial 24, por exemplo, “eu quero beber” vem primeiro, depois “despejar”, “provar”, “encher”, e só então água, leite ou suco.

Número de células e posições fixas: veja Organizar a grade.

Personalizar: quem escolhe as palavras?

Nenhum vocabulário pronto conhece o nome da irmãzinha nem o desenho animado do momento.

  1. Consulte várias pessoas. Pais, fonoaudiólogos e professores propõem, cada um, palavras que os outros não citaram (Morrow et al., 1993). A própria pessoa dá a palavra final.
  2. Observe as atividades reais: que palavras as outras crianças usam no recreio ou no futebol?
  3. Preencha as células previstas ([meu nome], [meu prato favorito], [minhas canções]) e acrescente suas fotos.
  4. Acrescente as palavras na hora certa. Uma palavra acrescentada durante a atividade, quando a pessoa precisa dela, aumenta o número de turnos de fala mais do que uma lista preparada semanas antes.
  5. Faça uma triagem. Arquive as palavras do tema escolar encerrado ou das férias passadas, sem apagá-las se a pessoa ainda quiser falar delas.

Um vocabulário que nunca é atualizado é uma causa frequente de abandono da ferramenta: veja Escolher a ferramenta.

E os vocabulários do Pictalk?

PicTalk Essencial 24 (celular), PicTalk Trampolim 48 e PicTalk Horizonte 80 (tablet) são três vocabulários gratuitos construídos a partir desses princípios publicados, com a mesma disposição em todas as línguas do Buddy, incluindo o português: cada palavra nuclear mantém sua célula em todas as páginas, as páginas temáticas colocam os verbos antes dos substantivos, há células previstas para as suas palavras, e o Trampolim e o Horizonte acrescentam páginas para adolescentes. Os detalhes estão na página de apresentação. Para pranchas para imprimir, veja a página de recursos.

Página inicial do vocabulário PicTalk Essencial 24 no Pictalk Buddy, com as células eu, quero, faço, de novo e mais circuladas.
Palavras nucleares na página inicial do PicTalk Essencial 24: eu, quero, faço, de novo, mais. Cada uma mantém sua célula em todas as páginas.

Perguntas frequentes

Quantas palavras são necessárias para começar?

Não existe número mágico: algumas palavras poderosas e as palavras pessoais bastam, e depois você acrescenta outras conforme as necessidades.

É preciso ter uma versão em papel?

Sim, para o banho ou quando a bateria acaba. O Buddy imprime pranchas e livretos a partir do seu vocabulário.

Pictalk Buddy reúne pranchas de CAA, agenda visual, sequências guiadas e cadernos de vida, com os mesmos pictogramas, no Android, no iOS, na web e no relógio. Aplicativo com preço livre (você paga quanto quiser), desenvolvido por uma associação sem fins lucrativos. Conhecer o Buddy

Referências

  • Beukelman, D. R., & Light, J. C., 2020, Augmentative & Alternative Communication (5. ed.), Paul H. Brookes. Estudos citados: Fallon, Light & Achenbach (2003), Fenson et al. (2007), Laubscher & Light (2018), Morrow et al. (1993), Vanderheiden & Kelso (1987), Yorkston et al. (1990).
  • Liberator / Prentke Romich Company, Teaching Core Words Across the Day: First 50 Words (edição LAMP Words for Life).

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