Tablet, celular ou pasta de papel: que ferramenta de CAA escolher, e como saber se ela serve? Não se começa pela ferramenta, mas pela pessoa; o papel e a tela se complementam, e uma ferramenta só se avalia depois de um teste real de várias semanas.
O que é preciso saber sobre a pessoa antes de escolher?
A abordagem de referência, o modelo de participação, parte da vida da pessoa: onde ela participa, o que a impede, e só então as ajudas a escolher (Beukelman e Light, 2020). Antes de baixar qualquer coisa, anote:
- As atividades e os lugares dela: refeições, escola, trabalho, lazer, compras, piscina, consultas médicas. Em cada um, o que falta para se comunicar?
- Os parceiros dela: pessoas próximas que conhecem os gestos dela, ou desconhecidos que precisam de uma voz clara? Os amigos e os desconhecidos pedem outras mensagens que a família.
- O acesso dela: ela aponta com o dedo de forma confiável? É preciso uma colmeia (protetor de teclado), um acionador, o olhar?
- As línguas dela e as das pessoas próximas.
- As vontades dela, não só as necessidades: provocar os irmãos, falar de futebol, contar as férias. Uma boa ferramenta também serve para comentar, recusar ou criar laços (veja Além dos pedidos).
- O número de palavras de que ela precisa, e quem vai atualizar a ferramenta. Quanto mais rico o vocabulário, mais prático se torna o digital.
Não espere o fim dessa análise para oferecer um meio de comunicação: não há pré-requisitos, e uma primeira ferramenta simples pode ser proposta logo (veja Os mitos sobre a CAA).
Papel, tablet ou os dois?
Fala-se de CAA de baixa tecnologia para os suportes sem eletrônica (pranchas e pastas impressas, cartões, alfabetos, pranchas transparentes para o olhar) e de alta tecnologia para os tablets, celulares e dispositivos dedicados que falam. Os gestos e os sinais continuam valiosos, mas interlocutores sem formação só adivinham de 10 a 30% deles, segundo um estudo (Daniloff et al., 1983): com desconhecidos, um suporte físico é necessário.
| Critério | Papel (baixa tecnologia) | Tablet ou celular (alta tecnologia) |
|---|---|---|
| Custo | Baixo: impressão, plastificação | Aparelho a financiar; software gratuito ou pago |
| Voz | Não: o parceiro precisa olhar e ler | Sim: chama a atenção sem contato visual, funciona à distância, ao telefone e com quem não lê |
| Vocabulário | Limitado pelo número de páginas | Milhares de palavras, organizadas em páginas |
| Gramática | Difícil de representar | Conjugação, concordância, predição, conforme o aplicativo |
| Resistência | Sem bateria, vai para o banho e para a piscina | Bateria, quebra, água |
| Atualização | Reimprimir | Acrescentar uma palavra em poucos segundos |
| Imagem social | Discreta ou muito visível, conforme o formato | Um tablet comum é visto como “normal” |
Para aprender, os dois funcionam: a modelagem (mostrar os pictogramas enquanto se fala) tem efeitos importantes tanto no papel quanto na tela (Allen et al., 2017; O'Neill, Light e Pope, 2018). A voz traz autonomia com desconhecidos; o papel assume quando a bateria acaba. A combinação mais sólida costuma ser um aplicativo principal e uma cópia em papel.
A regra: a mesma disposição no papel e na tela
A cópia em papel deve repetir exatamente as mesmas posições do aplicativo: a palavra “mais” fica no mesmo lugar na folha e na tela. A pessoa não tem nada a reaprender e os gestos dela se tornam automáticos. Erro frequente: uma pasta organizada de outro jeito que o aplicativo, que obriga a procurar cada palavra duas vezes. Verifique se o aplicativo sabe imprimir as pranchas e reimprima depois de cada mudança importante (veja Organizar a grade).
Pequenas pranchas de papel para cada lugar
Acrescente algumas pranchas plastificadas para os lugares onde o tablet não vai ou fica guardado:
- o banheiro e o banho;
- a piscina;
- o carro;
- as refeições e as atividades que sujam;
- uma prancha de “emergência”, sempre à mão, com pelo menos sim, não, estou com dor, me ajuda.
Para fazê-las, veja Criar uma prancha de comunicação e os nossos recursos para imprimir.
O checklist: cinco blocos a verificar
| Bloco | Perguntas a fazer |
|---|---|
| 1. Vocabulário | Dá para acrescentar facilmente palavras pessoais (nomes, fotos da família, lugares, paixões)? As palavras ficam no mesmo lugar quando se acrescentam outras? O vocabulário pode crescer, por exemplo revelando células ocultas, sem reorganizar tudo? Há como recusar, protestar, dizer pare, perguntar, comentar, cumprimentar? Palavras para o corpo, a dor, a intimidade? Imagens adequadas à idade? |
| 2. Acesso | O tamanho das células é ajustável? Dá para usar uma colmeia? A pessoa precisa de um acionador ou de controle pelo olhar (só alguns aplicativos servem)? A ferramenta funciona na cadeira de rodas, na cama, no carro? |
| 3. Voz e língua | As vozes correspondem à idade e ao gênero da pessoa, e ela pode escolher a dela? O aplicativo foi adaptado ao português (concordância, conjugação) ou apenas traduzido? Dá para mudar de língua mantendo as mesmas posições (veja CAA e bilinguismo)? |
| 4. Dia a dia | Dá para acrescentar uma palavra em menos de um minuto, durante a atividade? Funciona off-line? Sincroniza entre a casa, o celular e a escola? Dá para imprimir as pranchas nas mesmas posições? Exportar os dados num formato aberto (OBZ) para não depender de uma empresa? Quanto custa ao longo de vários anos, com assinatura? Onde ficam hospedados os dados? |
| 5. Além da fala | A pessoa precisa de uma agenda visual, de sequências para realizar uma tarefa sozinha, de um caderno de vida? Essas ferramentas usam os mesmos pictogramas que as pranchas de comunicação? |
Dois critérios costumam pesar mais que os outros. A facilidade de modificar: os pais a colocam em primeiro lugar (Meder e Wegner, 2015), e um vocabulário que não evolui acaba abandonado (Johnson et al., 2006). O acesso, que sozinho pode descartar opções: veja acesso: posicionamento, acionador, controle pelo olhar. Para o custo, veja Financiar a CAA.
Como organizar um teste real?
ConfigurarUma única ferramenta, pronta para uma situação prioritária
ModelarMostre as palavras na ferramenta enquanto fala
PraticarUma a duas semanas antes de observar
ObservarUso, rapidez, cansaço, e a opinião da pessoa
- Uma ferramenta de cada vez, por várias semanas.
- Configure-a inteira para uma situação prioritária (o lanche, o recreio, as compras) antes de avaliá-la.
- Modele: mostre as palavras na ferramenta enquanto fala, nos momentos de que a pessoa gosta (veja Modelar, esperar, responder).
- Deixe uma a duas semanas de prática antes de observar.
- Observe: a pessoa usa a ferramenta, com que frequência, com que precisão? Os parceiros a entendem? É rápido, cansativo? Ela participa mais?
- Peça a opinião dela, mesmo a partir de capturas de tela. Respeitar as preferências dela pode acelerar a aprendizagem (van der Meer et al., 2011).
Não avalie depois de uma semana: um usuário experiente estimou ter precisado de cerca de 96 horas de prática para dominar a ferramenta, enquanto a formação habitual dura de 2 a 6 horas (Horton et al., 2001).
Que erros evitar?
- Escolher a ferramenta que se conhece. É o primeiro viés citado por Beukelman e Light: o profissional recomenda o que domina, não necessariamente o que serve.
- Confiar só nas tabelas de funcionalidades. Elas nunca foram validadas e favorecem as soluções mais tecnológicas. Para situar os aplicativos do mercado, o nosso comparativo de aplicativos de CAA é um ponto de partida, não um veredito.
- Guardar o tablet para protegê-lo. Uma ferramenta que fica na capa não serve para nada: use uma capa resistente e a cópia em papel para as atividades que sujam.
- Apostar tudo num único suporte. Ninguém se comunica por um único meio: gestos, voz, papel e tela se complementam (Williams, Krezman e McNaughton, 2008).
- Esquecer as pessoas ao redor. As causas de abandono são quase sempre as mesmas: ferramenta inadequada, família ou profissionais sem apoio nem formação, vocabulário não atualizado, parceiro importante que rejeita a CAA, aparelho grande demais ou pequeno demais, nunca um treino nas situações reais.
A melhor ferramenta é aquela que as pessoas ao redor vão saber manter viva (veja Implantar a CAA em equipe).
Perguntas frequentes
É preciso começar pelo papel antes do tablet?
Não, não é uma etapa obrigatória. Dá para começar direto no tablet, ou com os dois. O papel serve sobretudo de cópia e de reserva.
Tablet ou celular?
Depende do tamanho das células de que a pessoa precisa e dos deslocamentos dela. Um tablet oferece células maiores; um celular está sempre no bolso.
Um aplicativo gratuito pode bastar?
Sim, se corresponder às necessidades da pessoa: o preço não diz nada sobre a adequação. Já as necessidades de acesso específicas (olhar, acionadores) costumam exigir uma ferramenta especializada.
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Referências
- Beukelman, D. R. e Light, J. C. (2020). Augmentative & Alternative Communication (5. ed.). Paul H. Brookes.
- Estudos citados a partir dessa obra: Daniloff et al. (1983); Allen et al. (2017); O'Neill, Light e Pope (2018); Meder e Wegner (2015); Johnson et al. (2006); van der Meer et al. (2011); Horton et al. (2001); Williams, Krezman e McNaughton (2008).