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CAA e bilinguismo: comunicar-se em todas as suas línguas
CAA e bilinguismo: comunicar-se em todas as suas línguas
Alexandros

Escrito por Alexandros SIDIRAS GALANTE em segunda-feira 28 setembro 2026, atualizado em quinta-feira 15 outubro 2026

Tempo estimado de leitura ~ 6 minutos

Em casa se fala espanhol, árabe ou inglês, na escola, português: em que língua colocar a ferramenta de CAA da criança? Em todas as línguas da vida dela. Mas é preciso evitar traduzir palavra por palavra o tablet da escola, e saber o que fazer quando a língua da família não está disponível.

Duas línguas são um obstáculo?

Não. Muitos pais já ouviram: “com a deficiência dele, é melhor falar uma língua só”. Esse conselho se baseia numa intuição, não em dados: a exposição a duas línguas não prejudica as crianças com um transtorno do desenvolvimento (Ohashi et al., 2012, citados por Beukelman & Light, 2020).

A língua de casa é a dos carinhos, das brigas, das receitas, das canções da avó. Tirá-la da ferramenta de comunicação é afastar a criança de uma parte da família. Aliás, os especialistas consideram um sinal de alerta uma ferramenta de CAA numa só língua para uma família que fala várias (Beukelman & Light, 2020).

Um caso relatado na literatura mostra isso: um homem que falava espanhol em casa e usava uma prancha alfabética em inglês na escola só conseguiu ter uma conversa de verdade com o pai na universidade (Estrella, 2000, citado por Beukelman & Light, 2020). Anos de conversas perdidas, porque a ferramenta dele não falava a língua da família.

Por que não simplesmente traduzir o tablet?

Traduzir palavra por palavra a prancha da escola funciona mal, por quatro motivos (Soto & Yu, 2014, citados por Beukelman & Light, 2020):

  • As palavras frequentes mudam. Cada língua tem suas palavras do dia a dia, suas expressões, suas palavrinhas.
  • A gramática muda. O português tem concordância de gênero e número, muitas conjugações, “você” e “o senhor”; outras línguas funcionam de outro jeito.
  • A cultura muda. Pratos, festas, cumprimentos, gestos e níveis de cortesia não se traduzem.
  • O contexto muda. Em casa se fala de rotinas, família, cozinha, religião, visitas: não das mesmas coisas que na sala de aula.

Alguns exemplos encontrados ao adaptar os vocabulários Pictalk:

  • Em francês, encore quer dizer ao mesmo tempo “mais” e “de novo”. Em espanhol, os dois sentidos se separam: o botão encore vira más, e outro botão recebe otra vez.
  • Em espanhol, os franceses non e pas se dizem os dois no. Dois botões idênticos lado a lado não fariam sentido: foi preciso escolher outra palavra para um deles.
  • O francês j'ai mal vira me duele em espanhol e it hurts em inglês, com uma construção diferente para dizer onde dói.
  • O vous de cortesia francês vira usted em espanhol, Sie em alemão, Lei em italiano; o inglês só tem um you e recorre a outras fórmulas.

O princípio: construir em vez de traduzir. Para cada botão, procuramos a palavra que uma criança da mesma idade diria de verdade naquela língua.

Por que manter a mesma disposição em cada língua?

Porque a mão da criança aprende trajetos. Se “eu quero” está no mesmo lugar em português e em espanhol (yo quiero), a criança só tem um caminho motor para memorizar, e o pai que modela em espanhol em casa usa o mesmo mapa que a professora que modela em português na escola. É o princípio das posições estáveis, bem estabelecido na CAA (veja Organizar a grade). Até onde sabemos, o efeito de uma disposição comum em crianças bilíngues não foi avaliado especificamente.

Três pictogramas lado a lado: uma pessoa apontando para si mesma, uma mão estendida para uma bola, duas setas em círculo.
“eu quero mais” em português, “yo quiero más” em espanhol: os mesmos pictogramas, nos mesmos botões, com o mesmo gesto.

É uma vantagem real para as famílias bilíngues: os vocabulários PicTalk Essencial 24, PicTalk Trampolim 48 e PicTalk Horizonte 80 mantêm a mesma disposição em todas as línguas do Buddy. Páginas, botões, links, cores e pictogramas são idênticos; só mudam as palavras, além dos teclados, adaptados a cada alfabeto (ñ, ä, ö, ü, ß, acentos). O inglês é o americano, o espanhol é um espanhol latino-americano “neutro”, compreendido do México à Argentina, e o português é o do Brasil (ver os vocabulários).

Essas versões também levam em conta a diversidade das famílias: a página das festas reúne Natal, Páscoa, Eid, Ramadã ou Hanukkah, e botões para personalizar, como [nossas festas] ou [meu prato preferido], recebem o que importa na sua casa.

E se a nossa língua não estiver disponível?

O Buddy está disponível em 11 línguas (francês, inglês, espanhol, português, alemão, italiano, finlandês, sueco, holandês, norueguês, dinamarquês), o que ainda é pouco diante da diversidade das famílias. Se a sua não estiver entre elas:

  • Edite os rótulos. Cada botão pode ser editado: escreva a palavra na sua língua mantendo o pictograma e a posição.
  • Escolha uma voz adequada. O Buddy oferece vozes neurais para baixar, que funcionam no próprio aparelho: a Supertonic, que cobre cerca de trinta línguas conforme o aparelho, e, no iPhone, iPad e Android, vozes Pictalk leves em francês, inglês, espanhol, alemão, italiano e português. As vozes instaladas no aparelho cobrem muitas outras línguas.
  • Grave uma voz. Cada botão pode tocar uma gravação, por exemplo um familiar dizendo a palavra na língua da família.
  • Imprima uma prancha com as palavras na língua da família, para os momentos em casa (modelos na página de recursos).
  • Use os pictogramas ARASAAC, cujas palavras-chave existem em muitas línguas, para preparar suas próprias páginas: arasaac.org.

Não se esqueça das línguas de sinais, como a Libras, e dos sinais para palavras-chave: para muitas crianças, eles fazem parte da comunicação tanto quanto a fala e o tablet.

Como se organizar em família?

  1. Faça o mapa das línguas. Quem fala o quê, onde, com a criança? A mãe em espanhol, a escola em português, os primos nas duas. Isso indica quais vocabulários preparar.
  2. Cada adulto modela na sua língua. Mostre as palavras na ferramenta falando com naturalidade, com frases completas, na língua que for mais espontânea para você (veja Modelar, esperar, responder).
  3. Acrescente as palavras pessoais em cada língua: “vovó” e abuela, os pratos, os nomes, os lugares das férias.
  4. Prepare um cartão de apresentação na língua do interlocutor (veja o cartão “Como falar comigo”).

Perguntas frequentes

Dois vocabulários separados, ou um só com algumas palavras da língua da família?

As duas opções se justificam. O essencial é que a criança consiga passar facilmente de uma língua para a outra; com uma disposição idêntica, ela encontra cada palavra no mesmo lugar.

O fonoaudiólogo não fala a nossa língua: isso é um problema?

Não, mas ele ou ela precisa saber que a criança vive em duas línguas, assim como a escola. Leve exemplos, vídeos e pranchas impressas do que se fala em casa.

Pictalk Buddy reúne pranchas de CAA, agenda visual, sequências guiadas e cadernos de vida, com os mesmos pictogramas, no Android, no iOS, na web e no relógio. Aplicativo com preço livre (você paga quanto quiser), desenvolvido por uma associação sem fins lucrativos. Conhecer o Buddy

Referências

  • Beukelman, D. R., & Light, J. C., 2020, Augmentative & Alternative Communication (5. ed.), Paul H. Brookes. Estudos citados: Ohashi et al. (2012); Soto & Yu (2014); Estrella (2000).
  • Pictalk, guias de tradução dos vocabulários PicTalk Essencial 24, PicTalk Trampolim 48 e PicTalk Horizonte 80 (documentação interna).

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