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O que é CAA? O guia para começar bem
O que é CAA? O guia para começar bem
Eugenia

Escrito por Eugenia GALANTE em quinta-feira 06 março 2025, atualizado em quarta-feira 14 outubro 2026

Tempo estimado de leitura ~ 8 minutos

A comunicação alternativa e aumentativa (CAA) reúne todos os meios que complementam ou substituem a fala: gestos, sinais, pictogramas, pranchas, aplicativos que falam, escrita. Ela é para qualquer pessoa cuja fala não basta para se fazer entender no dia a dia, em qualquer idade e sem pré-requisitos. Veja aqui o básico e, depois, os guias para ler conforme você seja pai, mãe ou profissional.

O que é CAA, exatamente?

A CAA (em inglês AAC, augmentative and alternative communication) é o conjunto dos meios que complementam ou substituem a fala e a escrita, dos gestos aos aplicativos que falam. Não é uma ferramenta nem um método único: sinais, uma pasta de pictogramas ou um tablet que fala são todos CAA.

Falamos em necessidades complexas de comunicação quando a fala de uma pessoa não basta para atender às suas necessidades de comunicação no dia a dia, seja qual for a causa. Isso inclui, por exemplo:

“Mas nós entendemos ele muito bem”

Muitas famílias entendem o filho, os gestos, os sons, os olhares dele. Isso é precioso, mas em parte é uma ilusão de comunicação: na escola, no médico ou na loja, os interlocutores não o conhecem tão de perto, não sabem do contexto de vida dele e o entendem mal. A CAA serve para ser compreendido por todos, não só por quem aprendeu a adivinhar. Um cartão “Como falar comigo” ajuda a preparar esses encontros.

Alternativa ou aumentativa: qual a diferença?

As duas palavras da sigla descrevem dois usos complementares.

Comunicação alternativaComunicação aumentativa
PapelSubstitui a fala quando ela está ausente ou não pode ser usadaComplementa uma fala que existe, mas não basta
Para quemPessoas que não falamPessoas que falam um pouco, ou que são difíceis de entender
ExemploMontar uma frase num aplicativo que a pronunciaDizer uma palavra e mostrar o pictograma quando o interlocutor não entendeu

“Aumentativa” (também se diz “ampliada”) traduz o inglês augmentative: somamos meios aos que já existem. A fronteira não é fixa: a mesma ferramenta pode substituir a fala de uma pessoa e complementar a de outra.

CAA com ou sem apoio: com ou sem recurso externo?

A segunda distinção diz respeito ao meio usado.

TipoPrincípioExemplos
Sem apoioSó o corpo, sem recurso externoGestos, sinais, expressões faciais; sinais para palavras-chave, como o Makaton; Língua Brasileira de Sinais (Libras)
Com apoio, baixa tecnologiaUm recurso sem eletrônicaPrancha de comunicação, pasta de pictogramas, alfabeto, agenda visual de papel
Com apoio, alta tecnologiaUm recurso eletrônicoTablet ou celular com um aplicativo de CAA, dispositivo com saída de voz

A CAA sem apoio está sempre disponível, mas só quem conhece os sinais a entende (com os sinais para palavras-chave, diz-se a frase inteira sinalizando apenas as palavras importantes). A CAA com apoio exige ter a ferramenta por perto, mas qualquer pessoa pode entendê-la: uma voz sintetizada é ouvida de longe, inclusive por quem não lê.

Papel e digital se complementam, e uma cópia em papel continua indispensável quando o aparelho não está disponível. Para comparar as opções e organizar um teste, leia escolher a ferramenta: papel, tablet, teste.

Pictogramas, métodos, aplicativos: algumas referências

  • Os pictogramas são desenhos simplificados que representam uma palavra ou uma ideia; a base gratuita ARASAAC é muito usada em vários países.
  • O PECS é um método de CAA baseado na troca de figuras, usado sobretudo para ensinar a fazer pedidos (PECS ou CAA robusta?).
  • O PODD, criado por Gayle Porter, organiza as páginas pela intenção (conversar, fazer uma pergunta, dizer que algo não está bem) e não por categorias de palavras (além dos pedidos).
  • Os aplicativos de CAA são apresentados no comparativo de aplicativos de CAA.

Os termos técnicos (varredura, vocabulário nuclear, planejamento motor…) são explicados no glossário da CAA.

Por que se fala em comunicação multimodal?

Ninguém se comunica por um único meio: falamos, mas também apontamos, damos de ombros, escrevemos um bilhete. Quem usa CAA faz o mesmo: mistura fala, vocalizações, gestos, papel e aparelho, conforme a pessoa à sua frente e a situação. Um único modo nunca basta (Williams, Krezman e McNaughton, 2008, citados por Beukelman e Light, 2020).

  • Fala e sonsUm som compreendido é uma mensagem bem-sucedida
  • Gestos e sinaisPara um pedido simples a alguém próximo
  • Prancha de papelAssume quando o aparelho não está por perto
  • AplicativoPara contar algo, ou falar com quem não conhece os sinais
A mesma pessoa passa de um meio a outro conforme o interlocutor e a situação.

Um sinal muitas vezes basta para um pedido simples a alguém próximo; o aplicativo serve para contar algo ou falar com quem não conhece os sinais; o papel assume quando o aparelho não está por perto. O objetivo, portanto, não é trocar um meio por outro, mas somar. Um gesto ou um som compreendido é uma mensagem bem-sucedida: responda a ele, seja qual for o canal.

A comunicação é um direito

Comunicar-se é um direito humano fundamental, mas muitas vezes negligenciado por falta de tempo, de formação ou de ferramentas fáceis de implantar. O acesso à comunicação é condição para a autonomia e a aprendizagem, e é indispensável ao bem-estar e à saúde mental: muitos comportamentos desafiadores vêm da falta de meios para se expressar. Nas instituições especializadas, garantir esse acesso faz parte do plano de CAA da instituição (veja A CAA em instituições).

Quais princípios guardar antes de começar?

Estes princípios resumem o consenso da pesquisa, conforme a síntese de Beukelman e Light (2020). Cada um é aprofundado em um guia próprio.

  • Não há pré-requisitos: ninguém é novo demais, velho demais ou “não está pronto”, e treinar isoladamente habilidades consideradas prévias não melhora a comunicação (Kangas e Lloyd, 1988; Romski e Sevcik, 1988), como explica os mitos sobre a CAA.
  • Presumir competência é partir do princípio de que a pessoa entende mais do que consegue expressar (os mitos sobre a CAA).
  • A CAA não impede de falar: ela não atrasa a fala e muitas vezes ajuda a desenvolvê-la (Millar, Light e Schlosser, 2006; Romski et al., 2010), como detalha CAA e fala.
  • Aprende-se CAA vendo-a em uso: mostrar os pictogramas na ferramenta da pessoa enquanto falamos com ela (a modelagem) tem efeitos importantes na compreensão e na expressão, segundo várias metanálises (Allen et al., 2017; O'Neill, Light e Pope, 2018); veja modelar, esperar, responder.
  • As pessoas ao redor contam tanto quanto a ferramenta: uma linguagem que não serve para se comunicar com quem está próximo acaba sendo abandonada, e o envolvimento apenas dos profissionais não basta (formar os parceiros de comunicação).
  • Comunicar não é só pedir: contar uma novidade, cumprimentar, brincar ou contar uma história contam tanto quanto expressar necessidades (Light, 1988); veja além dos pedidos.
  • As palavras pessoais contam tanto quanto as nucleares: quem está começando parte das próprias palavras (nomes, comidas, brincadeiras) e de algumas palavras poderosas como “mais”, “acabou” ou “ajuda” (Laubscher e Light, 2018); veja que palavras colocar na ferramenta.
  • O vocabulário nunca está pronto: um vocabulário que não é atualizado é uma das principais causas de abandono das ferramentas (Johnson et al., 2006), daí a importância de fazer as palavras da ferramenta evoluírem.
  • As palavras não mudam de lugar: quando cada palavra fica sempre no mesmo lugar, o gesto para alcançá-la se torna automático; veja organizar a grade.
  • A CAA também serve para compreender: as agendas visuais são eficazes em qualquer idade (Bopp et al., 2004; Knight et al., 2015); veja apoios visuais: agenda, sequências, temporizador.
  • Ler e escrever é um objetivo para todos: a escrita é o único acesso a um vocabulário ilimitado, e pode ser ensinada sem pré-requisitos; veja CAA e leitura.

Por onde começar?

Siga o percurso que corresponde a você, na ordem. Se a condição da pessoa é conhecida (autismo, síndrome de Down, afasia…), acrescente o guia correspondente, citado acima.

Você é pai ou mãe

  1. Meu filho não fala: por onde começar: referências, sinais de alerta, primeiros passos em casa.
  2. Os mitos sobre a CAA: “novo demais”, “não está pronto”… o que diz a pesquisa.
  3. CAA e fala: mesmo que ele já diga algumas palavras.
  4. Modelar, esperar, responder: como falar com a ferramenta no dia a dia.
  5. Que palavras colocar na ferramenta: as primeiras palavras, nucleares e pessoais.
  6. Apoios visuais: agenda, sequências, temporizador: ajudar seu filho a entender o dia dele.
  7. Escolher a ferramenta: papel, tablet, teste: experimentar antes de decidir.
  8. Financiar a CAA: como preparar e documentar um pedido de financiamento.

Você é profissional

Fonoaudiólogo, educador, professor ou membro da equipe de uma instituição:

  1. Implantar a CAA em equipe: avaliação, profissional de referência em CAA, trabalho em equipe.
  2. Modelar, esperar, responder: modelagem, tempo de espera e formação dos parceiros.
  3. Que palavras colocar na ferramenta: vocabulário nuclear, periférico e pessoal.
  4. Organizar a grade: tamanho da grade, posições fixas e código de cores.
  5. Além dos pedidos: trabalhar todas as funções da comunicação.
  6. CAA e leitura: ensinar a ler e a escrever.
  7. A CAA na escola: apoio em sala de aula e material pedagógico adaptado.
  8. A CAA em instituições: o que um plano de CAA da instituição deve prever e como começar.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para aprender CAA?

A CAA se aprende como uma língua, ao longo de anos, mas dá para começar hoje mesmo. Os parceiros progridem rápido: menos de cinco horas de formação bastam para mudar suas práticas (Kent-Walsh e Binger, 2013, citados por Beukelman e Light, 2020).

Quem pode nos acompanhar?

Um fonoaudiólogo pode orientar você e ajudar a escolher o método e a ferramenta adequados. A ISAAC, associação internacional dedicada à CAA, que tem um capítulo no Brasil (ISAAC Brasil), reúne profissionais, famílias e usuários e informa as famílias.

Pictalk Buddy reúne pranchas de CAA, agenda visual, sequências guiadas e cadernos de vida, com os mesmos pictogramas, no Android, no iOS, na web e no relógio. Aplicativo com preço livre (você paga quanto quiser), desenvolvido por uma associação sem fins lucrativos. Conhecer o Buddy

Referências

  • Beukelman, D. R. e Light, J. C., 2020, Augmentative & Alternative Communication: Supporting Children and Adults with Complex Communication Needs, 5. ed., Paul H. Brookes.
  • Estudos citados a partir desta obra: Williams, Krezman e McNaughton (2008); Kangas e Lloyd (1988); Romski e Sevcik (1988); Millar, Light e Schlosser (2006); Romski et al. (2010); Allen et al. (2017); O'Neill, Light e Pope (2018); Light (1988); Laubscher e Light (2018); Johnson et al. (2006); Bopp et al. (2004); Knight et al. (2015); Kent-Walsh e Binger (2013).

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